por Joana D’arc
Transmitir sentimentos a cada nota musical e fazer com que o ouvinte possa captar sua mensagem não é tarefa das mais fáceis. Com composições muito bem feitas, Edi Roque consegue conquistar os amantes de riffs e solos tocando de forma bastante peculiar e apresentando sua notável experiência com produção. Sincero a cada acorde, Edi cria um clima bem reflexivo através de suas composições, esbanjando versatilidade e técnica. Segue abaixo uma entrevista concedida pelo guitarrista que, mostrando-se um excelente e carismático profissional, fala sobre suas influências, sobre a receptividade do mais recente trabalho lançado, sobre as dificuldades enfrentadas nas gravações e outros pontos de sua carreira como músico.
Fale um pouco sobre seu
contato com a música.
Edi Roque: Eu
comecei na música muito cedo, influenciado pelo meu pai, que tinha um teclado
em casa e tocava eventualmente, aos 5 ou 6 anos fui ter aulas de piano e não
parei mais. A transição para a guitarra aconteceu aos 11 ou 12 anos após ouvir “Little
Wing” (Hendrix), foi ali que eu descobri o que queria fazer pelo resto da minha
vida. Passei anos adaptando estudos do piano para a guitarra e só aos 14 anos
fui ter aulas de guitarra com o Fernando Medeiros. Depois disso tive aulas de
composição e arranjo com o maestro Ferdinando d’Oliveira e aulas de harmonia e
orquestração com Michel Perie.
Como você desenvolveu
sua técnica como músico? Há algum guitarrista atual que você considere como influência?
Edi: Minha
técnica vem desse período que passei adaptando o que aprendi nas aulas de piano
para a guitarra. O fato de ser um canhoto tocando destro também faz com que eu
tenha muita facilidade em tocar ligados em várias aberturas e salto de cordas,
pois a mão mais forte acaba sendo a da escala. Na verdade, por ter começado
muito cedo, eu acabei amadurecendo precocemente (risos) e sinto que minha
abordagem na guitarra se tornou muito mais voltada para o lance da composição
mesmo do que meramente técnica. Embora eu possa tocar qualquer coisa, acabo
sempre utilizando a guitarra como uma ferramenta para expor uma ideia principal.
E é bacana isso porque consigo fazer as coisas parecerem mais simples (risos).
Meus guitarristas preferidos são os mesmos de quando descobri o rock: Hendrix,
Gary Moore, Paul Gilbert, Andy Timmons. Tem muita gente que vai ficar de fora (risos).
Você lançou em 2011 o
disco “Caminho”. Comente a respeito da
gravação do trabalho.
Edi: Esse
projeto começou muitos anos atrás e ficou encubado todo esse tempo, pois eu
estava produzindo muita gente e não sobrava espaço pra cuidar do meu próprio
trabalho (risos). As músicas gritavam dentro de mim e chegou um momento em que
tive que jogar tudo pra fora, eu não havia ainda escrito nada, tudo estava na
minha cabeça, desde a imagem da capa até a ideia de dividir o disco em 3
partes. Fiz uma pequena pré-produção apenas pra definir alguns detalhes de
arranjo e gravei o CD em um mês. Minha meta era finalizar tudo em 15 dias, mas
eu tive uma crise de tendinite já na pré-produção, o que me limitou a gravar
uma música por dia, em dias alternados. Foi um processo doloroso e muitas das
partes registradas ficaram diferentes do que eu queria fazer, mas estava
determinado a gravar aquilo. Algumas músicas foram gravadas no primeiro take,
outras precisaram de emendas e períodos de descanso para serem registradas.
Você faz referências à
Bíblia nos títulos das canções. De certa forma, podemos considerar “Caminho”
como um disco conceitual? Fale sobre o processo de composição das faixas. A
repercussão obtida tem sido satisfatória?
Edi:
Sim. O disco foi todo baseado em passagens Bíblicas e eu tenho recebido
comentários de pessoas que compreenderam o projeto e tem utilizado o CD como a
trilha sonora para a leitura. A repercussão tem sido ótima. Tudo que é feito
com amor tem o seu devido retorno, e esse CD é fruto de muita dedicação.
Você conseguiu uma
sonoridade extremamente agradável no disco. Qual foi o equipamento utilizado?
Edi: Obrigado.
Basicamente meu som de guitarra é bem “cru”, coisa de guitarra empurrando um
bom valvulado no volume 11 (risos). Tenho pedais fabricados por mim que é de
onde vem o meu drive, chorus, delay e filtros, mas o mais importante é ter
consciência de que os pedais apenas auxiliam a contar a história, você tem que
ter conteúdo antes de ter o timbre. Eu não tenho necessidade de muitos efeitos
e você pode até perceber alguma variação nos timbres ao longo do disco, mas
está tudo na pegada mesmo, eu usei a mesma guitarra e a mesma configuração de
pedais e ampli, apenas fiz algumas mudanças na equalização do ampli pra separar
a guitarra base do solo, além de mexer no posicionamento do microfone também. O
foco nas gravações de guitarra era captar a interpretação o mais rápido
possível porque devido à crise de tendinite eu só tinha 30 minutos de mão pra
gravar (risos). Trágico e cômico. Tenho esse som de guitarra há tanto tempo que
não preciso pensar muito em como fazer a coisa funcionar.
Das faixas presentes em
“Caminho” há alguma que seja especial para você?
Edi: Eu
compus o disco todo sozinho, cada nota e cada acorde foram inspirados em
experiências muito pessoais. Eu não saberia escolher uma faixa em especial.
A ideia de gravar discos
instrumentais vem desde o início, quando você começou a tocar? Como se deu a
escolha dos músicos que o acompanham?
Edi:
Na verdade esse é o meu terceiro CD, os anteriores eram projetos de música com vocal,
mas também haviam faixas instrumentais inseridas. Eu nunca fiz diferenciação
entre música ‘cantada’ ou ‘tocada, como dizem por aí. Acredito até que a música
‘sem voz’ é a verdadeira expressão pura e universal, pois não existe a
fronteira da linguagem, do idioma. Num futuro próximo irei lançar outro disco
vocal, mas o projeto instrumental está abrindo algumas portas interessantes e
pretendo finalizar essa trilogia que começou com “Caminho”. Os músicos que
gravaram o CD simplesmente conheceram o projeto durante a pré-produção que eu
já vinha fazendo sozinho e se ofereceram para gravá-lo. São grandes músicos e
grandes amigos que contribuíram muito para o resultado desse projeto.
Qual a maior
dificuldade em se gravar álbuns instrumentais?
Edi:
Por mais estranho que possa parecer, a maior dificuldade, em minha opinião, é
encontrar artistas dispostos a fazer música sincera. Hoje em dia todo mundo
quer apenas ‘jogar para o público’, fazer coisas superficiais para agradar e poucos
são os músicos que fazem a arte simplesmente pela própria arte. A internet também
gera uma ilusão de que há um tipo de democracia virtual, e hoje é possível ao
‘artista independente’, se divulgar ‘de graça’. Isso é uma grande besteira
porque as gravadoras também estão utilizando a internet pra massificar seus
artistas. Basta entrar nos ‘YouTubes’ e ‘MySpaces’ pra confirmar isso, as
gravadoras estão monopolizando o espaço virtual também. Competir com isso é
algo assombroso, então a única arma que eu tenho nas mãos é o fato de ter feito
um CD do jeito que eu queria e tocando composições que eu escrevi por amor à
música. Ninguém me produziu, ninguém me ‘obrigou’ a fazer um determinado tipo
de música ou tocar de um jeito diferente pra atrair um tipo de público. O que
você ouve no meu trabalho é a mais pura expressão de quem sou eu enquanto ser
pensante e criativo.
Como você encara a cena
do Rock ‘N’ Roll no Brasil? Acredita que dá para viver só de música em nosso
país?
Edi: Temos
muitos músicos incríveis aqui. Diria até que somos mais capacitados do que
muito gringo, pois ainda temos uma cultura que oprime e marginaliza o Rock. É
só lembrar que o acesso a instrumentos de qualidade, métodos de estudo,
professores capacitados, etc. é algo recente por aqui. Lembro-me de que há
alguns anos atrás quem tinha uma guitarra importada era rico ou tocava com
cantor famoso, tudo era mais difícil pra gente. A galera ouvia o solo que o
Eddie Van Halen fez no “Beat it”, do Michael Jackson, e ficava imaginando o que
era aquilo, (risos). Hoje as coisas melhoraram bastante, mas é tudo muito
recente ainda. Outro detalhe, aqui é o País do Samba e sempre será. Quem vive o
Rock ‘N’ Roll no Brasil, antes de tudo, é um guerreiro. Viver de música só faz
sentido se você não puder viver de outra maneira, isso envolve passar
dificuldades como em qualquer outra área, mas o sentimento de realização ao
tocar e o prazer de empunhar uma guitarra supera qualquer obstáculo. Viver de
música não é só pagar as contas tocando na noite ou dar aulas em casa. Tem que
ser um ideal de vida, uma necessidade física e emocional.
Agradeço pela
entrevista. O espaço é seu...
Edi:
Quero agradecer primeiramente a vocês pelo espaço de extrema qualidade e pela oportunidade
em falar a respeito do meu trabalho, que é mais do que uma profissão, é a minha
vida. Preciso agradecer especialmente ao mestre Josino, ao Rafael e Marco, da
Cast, que tem apoiado esse meu projeto com as melhores guitarras Custom Shop do
Brasil, além do Tiago da Graphtech, que tem um sistema de piezo maravilhoso que
equipa essas guitarras, e é o som de violão que tenho utilizado ao-vivo e em
estúdio. Por fim, espero que as pessoas possam se identificar com a minha
música e quem quiser conhecer um pouco mais sobre mim ou quiser contratar o
workshop/apresentação é só acessar www.ediroque.com.br.
No site é possível baixar o CD gratuitamente e acompanhar todas as novidades a
respeito da agenda e também sobre o novo CD que será lançado ainda esse ano. Um
abraço a todos. Música e paz.